1.1 - História e desenvolvimento das técnicas de irrigação

Na literatura, nota-se que a irrigação foi uma das primeiras modificações no ambiente realizadas pelo homem primitivo. Uma das grandes revoluções que aconteceram na história da humanidade, a Revolução Agrícola, só foi possível naquele momento histórico, graças às técnicas de irrigação ali empregadas. A primeira revolução agrícola ocorreu 10 mil anos a.C, supostamente no período neolítico. Nessa época da história, os homens migraram do sistema de caça e coleta para a agricultura.
As primeiras tentativas de irrigação foram bastante rudimentares, mas a importância do manejo da água tornou-se evidente na agricultura moderna. Tribos nômades puderam estabelecer-se em determinadas regiões, irrigando terras férteis e, assim, assegurando produtividade suficiente para a sua subsistência.

Sistema ancestral de irrigação (Egito ou Mesopotâmia).


Dados históricos das sociedades antigas mostram a sua dependência da agricultura irrigada, onde grandes civilizações desenvolveram-se nas proximidades de grandes rios como o rio Nilo, no Egito, por volta de 6.000 a.C, rio Tigre e Eufrates, na Mesopotâmia, por volta de 4.000 a.C, e Rio Amarelo, na China, por volta de 3.000 a.C. Na Índia, há indícios da prática da irrigação em 2.500 a.C.
Nas civilizações antigas, a irrigação era praticada fazendo-se represamentos de água cercados por diques. Nessa época, nessas sociedades, prevaleceu o chamado “modo de produção asiático” e as sociedades hídricas. O uso das cheias de importantes rios para a irrigação dos vales permitiu o abastecimento de cidade, a comercialização entre sociedades, o desenvolvimento da escrita e por consequência, a mudança de paradigma desses povos e aumento das populações.

Os Jardins suspensos da Babilônia, uma das 7 Maravilhas do  Mundo antigo, foram irrigados. Não sabemos a técnica empregada.

Todos os anos, as águas do Nilo, engrossadas pelas chuvas que caem em setembro/outubro nas cabeceiras, cobriam as margens e se espalhavam pelo Egito. Quando baixavam, deixavam uma camada de húmus extremamente fértil, onde os camponeses plantavam trigo e seus animais pastejavam. Havia, entretanto, um grave inconveniente: se a cheia era muito alta, causava devastação; se fosse fraca, restavam menos terras férteis para semear e os alimentos escasseavam - eram os anos de vacas magras. Tornava-se vital controlar essas cheias. Sob o comando do faraó Ramsés III, os egípcios construíram diques que prensaram o rio em um vale estreito, elevando suas águas e represando-as em grandes reservatórios, de onde desciam aos campos através de canais e comportas, na quantidade desejada. O homem começava a dominar a ciência da irrigação e se dava conta de sua importância para o progresso. Experiências semelhantes ocorriam em outras partes do mundo de então. A maioria das grandes civilizações surgia e se desenvolvia nas bacias dos grandes rios.

Gravura mostrando a agricultura irrigada no Egito antigo.


Na Índia, os métodos de irrigação nos vales dos rios Indo e Ganges são conhecidos e praticados desde os tempos memoriais. Na China, sua imensa população sempre teve que realizar muitos esforços para cultivar arroz. Com muito engenho, o camponês chinês elevava a água, por processo manual, até os terraços que construíam nas escarpas das montanhas e, de lá, distribuíam-na cuidadosamente, quadra por quadra, com total aproveitamento do líquido e do solo.
A irrigação no México e América do Sul foi desenvolvida pelas civilizações Maias e Incas há mais de 2.000 anos. A técnica da irrigação continua a ser utilizada nessas terras, em algumas com sistemas de condução e distribuição de água bem antigos. No Irã, Ganats, túneis com 3.000 anos conduzem água das montanhas para as planícies. Barragens de terra construídas para irrigar arroz no Japão, bem como tanques de irrigação em Sri Lanka, datam 2000 anos e se encontram em pleno uso.

Sistema de canais para condução da água para irrigação na antiguidade.


Nos EUA, a irrigação já era praticada pelos índios da região sudoeste a 100 a.C. Exploradores espanhóis encontraram evidências de canais de irrigação e derivações ao longo de vários pontos dos rios. Os espanhóis também introduziram aos índios novos métodos de irrigação e novas culturas irrigadas, tais como frutíferas, vegetais, oliveira, trigo, e cevada. Como em outras áreas do mundo a irrigação permitiu que índios se estabelecessem e desfrutassem de fonte mais segura de alimentos.

Mesa Verde National Park: povos Anasazi utilizavam a irrigação desde o séc. XIII a.C. Foto: Andreas F. Borchert.


Os pioneiros na região oeste dos EUA não foram diferentes do que os povos das civilizações antigas. Os agricultores desenvolveram técnicas de irrigação que eram empregadas através de cooperativas. O desenvolvimento da agricultura irrigada no oeste americano teve apoio do governo através dos atos: Desert Land Act em 1877 e do Carey Act em 1894. Nas regiões sudoeste da Califórnia e Utah, a irrigação não expandiu rapidamente até o ato Reclamation Act, em 1902. O desenvolvimento da irrigação deveu-se ao apoio do governo, fornecendo crédito, e técnicos especializados para a construção da infraestrutura de distribuição e armazenamento de água para irrigação.
Depois da Segunda Guerra Mundial, a agricultura irrigada expandiu rapidamente na região Central das Grandes Planícies e na região Sudoeste. Nos últimos anos, a expansão das áreas irrigadas tem diminuído bastante em função dos baixos preços em commodities, da alta dos custos de energia e da menor disponibilidade dos recursos hídricos.

Um Shadoof retirando água em 1905 no Egito e em 1928 no Sudão. Fonte: Irrigation Museum.


O Japão, a Indonésia e outros países do Oriente adotaram sistemas parecidos. Aqui na América Latina, os Maias, Incas e Astecas deixaram vestígios de suas obras de irrigação onde hoje se localizam o México, Peru, norte do Chile e Argentina. Na Espanha e na Itália ainda sobrevivem redes de canais e aquedutos dos tempos dos dominadores árabes e romanos.

Parte do sistema de irrigação do Sri Lanka, o mais antigo datado de cerca de 300 a.C, no reinado do rei Pandukabhaya. Foi um dos mais sofisticados do mundo.


Israel e Estados Unidos foram por décadas, exemplos à parte. Sem a irrigação, a agricultura seria impossível em Israel, com seu solo pedregoso, ausência severa de chuvas e um único rio perene, o Jordão. Aproveitando de forma extremamente racional o pequeno Jordão, construindo imenso aqueduto do lago Tiberíades até o deserto de Neguev, extraindo água dos mananciais subterrâneos e aplicando modernos processos científicos no uso econômico da água, a nação israelense consegue não só abastecer-se como exportar cereais, frutas e laticínios. Já os Estados Unidos por muito tempo se manteve na condição de maior produtor mundial de alimentos, e devem muito de sua prosperidade aos gigantescos e numerosos projetos de irrigação que implantaram em vários pontos de seu território.

Parafuso de Arquimedes: Egito (primeira década do séc. XX).


O desenvolvimento de várias civilizações antigas pode ser traçado através do sucesso da irrigação. A irrigação antiga teve como consequência dois grandes impactos: suprimento de alimento e aumento de população. Através da irrigação foi possível estabelecer uma fonte mais estável de alimentos, fibras e suportar populações mais densas. O insucesso de civilizações pode ser notado através de aspectos físicos e sociais ligados ao desenvolvimento da irrigação. Entre os aspectos físicos podemos citar a inabilidade em lidar com inundações e salinidade. Em outra instância, a falta de cooperação entre povos que desenvolviam e operavam sistemas de irrigação. Problemas semelhantes ainda acontecem nos dias de hoje em áreas com agricultura irrigada em expansão.

Funcionários ativam os aspersores do Central Park (1928).


O Brasil é um país iniciante e tem dois desafios: o do Nordeste, onde há clima seco, problemas de salinidade da água e poucos rios perenes, como o São Francisco, e o do restante do país, com suas más distribuições pluviométricas e outros fatores.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
- CARDOSO, Ciro Flamarion S. Cardoso. Sociedades do Antigo Oriente Próximo. 2ª Ed. São Paulo: Ática, 1988.
- MELLO, Jorge Luiz Pimenta; SILVA, Leonardo Batista da. Irrigação. Rio de Janeiro: IT/DE/ UFFRJ, 2009. 190p. - (Apostila)
- PINSKY, Jaime. As primeiras Civilizações. 20ª Ed. São Paulo: Contexto, 2001. – (Repensando a História).

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