1.2. Geografia dos sistemas irrigados pelo mundo e no Brasil

A irrigação no Brasil depende de fatores climáticos. No semiárido do Nordeste, é uma técnica absolutamente necessária para a realização de uma agricultura racional, pois os níveis de chuva são insuficientes para suprir a demanda hídrica das culturas. Nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, pode ser considerada como técnica complementar de compensação da irregularidade das chuvas.
A irrigação supre as irregularidades pluviométricas, chegando a possibilitar até três safras anuais. É o caso do município de Guaíra (SP), onde operam mais de uma centena de equipamentos do tipo pivô central. Na Amazônia, o fenômeno é inverso, pois há excesso de chuvas; neste caso, deve se retirar água do solo, através de drenagem. É o que ocorre na Fazenda São Raimundo (Pará), parte do projeto Jari. No Brasil, em maioria, a irrigação surge e surgiu através dos grandes projetos produtivos.
No Brasil, os cultivos irrigados iniciaram no fim do século XIX e início do século XX, na produção de arroz no Rio Grande do Sul. Nas décadas de 1970 e 1980, com as políticas de desenvolvimento regional, os cultivos irrigados se expandiram.
No Rio Grande do Sul, vastas extensões de áreas planas e uma boa disponibilidade de água facilitaram a implantação de grandes tabuleiros que produzem arroz irrigado. O projeto Camaquã é um exemplo a ser lembrado. O método predominante é a inundação, com baixo nível tecnológico. Naquele Estado estão as maiores áreas irrigadas no país.

Cultivo irrigado de arroz por tabuleiros no Rio Grande do Sul. Foto: Iser Assessoria.


Ainda nesse Estado, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), produz arroz orgânico irrigado em grande escala. Desde a década de 1990, assentados pelo governo federal em 16 municípios gaúchos, onde produziram a maior safra de arroz orgânico da América Latina. Juntas, associadas em cooperativas, as 501 famílias colheram na safra 2017-2018, 24.000 toneladas do cereal, que é comercializado com a marca ‘Terra Livre’.
O Projeto Rio Formoso, localizado em Formoso do Araguaia/TO é classificado como o maior projeto de irrigação de áreas contínuas da América Latina. Possui uma área total de 27.787 hectares, que funcionam através de um sistema de irrigação tanto por inundação quanto por subirrigação. Se por um lado, esse projeto vem há décadas gerando emprego e renda, os impactos ambientais no rio Formoso e Javaé são muito sérios.
A irrigação "profissional" deve ser entendida como aquela em que o agricultor investe na tecnologia de irrigação, buscando garantir, aumentar ou melhorar sua produção. É praticada principalmente nos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Pernambuco, Bahia, Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina. Adotam-se, em geral, duas safras anuais em culturas de maior retorno econômico, como feijão, frutas, produção de sementes selecionadas, tomate e flores. Predomina o método da aspersão, com uma tendência para a utilização de equipamentos do tipo pivô central, que são automatizados e cobrem grandes áreas (em média 50 a 60, chegando a mais de 120 hectares por um único equipamento).
Tal irrigação desenvolveu-se a partir de 1980, impulsionada por programas de incentivo e pela implantação da indústria nacional de equipamentos. Disponibilidade restrita de recursos hídricos e de energia elétrica no meio rural são empecilhos para a sua maior expansão. As regiões de Cerrado, principalmente em São Paulo, Minas Gerais e Goiás e agora a chamada MATOPIBA (fronteira entre Maranhão, Tocantins, Piaui e Bahia), se posicionam como grandes fronteiras agrícolas irrigadas, predominando o uso de irrigação por aspersão autopropelida, especialmente de pivôs centrais. As regiões noroeste e Triângulo Mineiro em Minas Gerais, juntamente com o leste e sul/sudeste de Goiás formam um grande mosaico.
Em 2010, a Embrapa fez levantamento das áreas irrigadas por pivôs centrais no Estado de Minas Gerais. Foi realizado através da identificação visual em mosaico formado por 35 imagens do satélite Landsat 5 TM exibido no Google Earth no formato kml (Keyhole Markup Language). Foram identificados 4.432 pivôs centrais ocupando uma área irrigada de 303.368 hectares em todo o Estado, estando a maior concentração espacial nos municípios de Unaí (44.258 ha), Paracatu (40.179 ha) e Rio Paranaíba (12.676). Cerca de 40% da área irrigada por este sistema localiza-se nas bacias hidrográficas dos rios Paranaíba (74.330 ha) e Araguari (46.546 ha).
Canal construído na transposição do Rio São Francisco. Foto: IBAMA.


A história da irrigação no Nordeste está vinculada à luta contra a falta de água no polígono das secas. Desde o Segundo Império, é constante a promessa de irrigar a região com a política de construção de açudes e resultados práticos muito localizados. Condições adversas de clima, solos em geral inadequados, falta de infraestrutura, sérios problemas na estrutura fundiária, práticas agrícolas de baixo nível tecnológico e questões políticas são alguns problemas existentes. A implantação de um perímetro irrigado envolve custos muito elevados, de 6 mil a 20 mil dólares por hectare. Os projetos particulares consomem entre 600 a 3.500 dólares. O perímetro deve ser suprido com rede de energia elétrica, escolas, hospitais, estradas, habitações, treinamento etc.
No Vale do São Francisco, região favorecida pela insolação e pela disponibilidade de água, floresce auspiciosamente, no polo Petrolina-Juazeiro, a agricultura irrigada (merece destaque os projetos Tourão, Nilo Coelho e do grupo Milano). Baseada na infraestrutura governamental e ligada à iniciativa privada, essa agricultura irrigada abastece uma agroindústria recém-implantada e fornece frutas para o mercado interno e para exportação.
Segundo a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco e Parnaíba (CODEVASF), projetos de irrigação ligados à mesma produziram mais de 3,7 milhões de toneladas de itens agrícolas em 2019. Mais de R$ 3 bilhões em valor bruto de produção (VBP) – isto é, a estimativa do valor total obtido pelos agricultores com a venda da produção agrícola – e cerca de 249 mil empregos diretos e indiretos.
Esse foi o saldo alcançado, em 2019, pelos projetos públicos de irrigação implantados pela CODEVASF na bacia do rio São Francisco. Aproximadamente 3,7 milhões de toneladas de itens agrícolas, sobretudo frutas, foram produzidos nesses projetos. Os dados foram divulgados pela Área de Gestão de Empreendimentos de Irrigação da Companhia. A região que tem como principal centro a cidade pernambucana de Petrolina tornou-se uma referência no cultivo irrigado de frutíferas de clima tropical e temperado.
Além de proteger a população contra a seca na região Nordeste, os canais implantados pela transposição do Rio São Francisco na última década estão começando a ter grande importância para os cultivos irrigados. Depois de 14 anos de obra, a expectativa é que esta seja concluída até este ano de 2021. Segundo reportagem da Gazeta do Povo, a obra tem capacidade projetada de bombeamento de 126 m³ por segundos, sendo 99 m³/s no eixo norte e 27 m³/s no leste. A capacidade instalada, contudo, é de 24 m³/s no eixo norte e 14 m³/s no leste, segundo o Ministério do Desenvolvimento Regional.
Nesse gigantesco projeto, há algumas contradições importantes: o rio São Francisco e seus subsidiários tendem a serem prejudicados sobremaneira desde as suas nascentes até nas descargas, com impactos que podem ser irreversíveis em médio e longo prazo. Além disso, há conflitos e disputas entre as populações ribeirinhas e as empresas e propriedades que exploram a água dos canais para a irrigação e para a aquicultura e pesca.
De acordo com Lineu Rodrigues, pesquisador da Embrapa Cerrados, hoje o Brasil irriga em torno de sete milhões de hectares, o que representa cerca de 3% da área plantada, grande parte localizada na região do Cerrado. Os estudos mostram, no entanto, que o potencial de irrigação no Brasil é de 61 milhões de hectares, sendo 38 milhões se forem levados em consideração apenas regiões com solo e relevo de alta e média qualidade.
Distribuição dos tipos (tipologia) de irrigação pelo território brasileiro. Fonte: ANA (2017).


No Brasil, o arroz é produzido majoritariamente no sistema de inundação (método superficial), de acordo com a Agência Nacional de Águas (ANA). A área em 2015 foi 1,54 milhão de hectares (22,0%) desse cultivo, representando 22% do total de irrigação no país. Porém, a cultura predominante é a cana-de-açúcar. A cana é irrigada principalmente pelo método de aspersão por carretéis enroladores (hidro roll), por sistemas lineares e por pivôs centrais. Representava naquele ano um total de 2,07 milhões de hectares de área e 29,5% do total, em relação ao que é irrigado no país. Os cultivos por pivôs centrais, considerando as demais culturas (exceto arroz e cana) irrigadas em sistema de pivô central (método por aspersão) ocupam uma área de 1,4 milhões de há (19,9%). Destaca-se neste sistema a produção de grãos, em especial algodão, feijão, milho e soja. Os demais cultivos irrigados ocupam cerca de 2 milhões de hectares e representam 28,6% do total. Nesse grupo, consideram-se as demais culturas irrigadas por outros sistemas de irrigação, não contempladas nos grupos anteriores. Inclui a irrigação de pastagens, flores, café, hortaliças, legumes, frutas e grãos que, em grande medida, estão associadas com os métodos por aspersão e localizado.

Mapa da expansão das áreas irrigadas no Brasil (1974-2018). Fonte: CHRISTOFIDIS (2018).


Segundo dados da FAO (2017), o Brasil está entre os dez países com a maior área equipada para irrigação do mundo. Os líderes mundiais são a China e a Índia, com cerca de 70 milhões de hectares (Mha) cada, seguidos dos EUA (26,7 Mha), do Paquistão (20,0 Mha) e do Irã (8,7 Mha). O Brasil aparece no grupo de países que possui área entre 4 e 7 Mha, que inclui Tailândia, México, Indonésia, Turquia, Bangladesh, Vietnã, Uzbequistão, Itália e Espanha. Entretanto, a irrigação no nosso País é considerada pequena frente ao potencial estimado, à área agrícola total, à extensão territorial e ao conjunto de fatores físico-climáticos favoráveis, inclusive a boa disponibilidade hídrica. Esse panorama é o oposto do verificado nos demais países líderes em irrigação, já que, de forma geral, estão mais próximos do aproveitamento total do seu potencial estimado.
Área irrigada por região geográfica do Brasil (1960-2015). Fonte: ANA (2017).


Os cenários otimistas sobre a agricultura irrigada (FAO, 2002), indicam que a irrigação será responsável por 40% da expansão de área agrícola no período 1995-2030 e de 50% a 60% do crescimento de produção de alimentos. Em 2050 haverá cerca de 394 milhões de hectares irrigados no Mundo. Os especialistas estimam que 80% do suprimento adicional de alimentos necessários para atender a demanda crescente será produzido em áreas irrigadas. A FAO estima que com a crescente competição pelo uso dos recursos, somente 12% a mais de água poderá ser disponibilizada para a produção de alimentos. Tal condição exige agricultura mais produtiva, mais intensiva, uso mais produtivo, mais eficiente e reuso de águas.
Áreas irrigadas por município brasileiro. Fonte: ANA (2017)



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

- ANA. Atlas Irrigação: Uso da Água na Agricultura Irrigada. Brasília: ANA, 2017. 86p.
- CODEVASF. Projetos de irrigação da Codevasf produziram mais de 3,7 milhões de toneladas de itens agrícolas em 2019. Extraído de https://www.codevasf.gov.br/noticias/2020/projetos-de-irrigacao-da-codevasf-produziram-mais-de-3-7-milhoes-de-toneladas-de-itens-agricolas-em-2019 em 03/02/2021.
- CHRISTOFIDIS, Demétrios. AGRICULTURA IRRIGADA NO MUNDO E NO BRASIL: Situação Atual e Perspectivas Futuras (Apresentação). In.: III Seminário “Solo e Água no Contexto do Desenvolvimento em Bacias Hidrográficas” & V WORKSHOP INTERNACIONAL DE IRRIGAÇÃO. Brasília: CODEVASF, 2018. 42p. Extraído de https://www.codevasf.gov.br/acesso-a-informacao/participacao-social/eventos/seminario-solo-e-agua-no-contexto-de-desenvolvimento-em-bacias-hidrograficas/iii-ssa/programacao/palestra-2-agricultura-irrigada-no-mundo-e-no-brasil_demetrios-christofidis.pdf em 04/02/2021.
- EMBRAPA CERRADOS. Pesquisa e setor produtivo discutem a agricultura irrigada no Brasil. Extraído de https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/54297801/pesquisa-e-setor-produtivo-discutem-a-agricultura-irrigada-no-brasil em 03/02/2021.
- GAZETA DO POVO. Após 14 anos, transposição do Rio São Francisco entra na reta final. Extraído de https://www.gazetadopovo.com.br/republica/transposicao-rio-sao-francisco-obras-reta-final/ em 03/02/2021.
- GUIMARÃES. Daniel Pereira; LANDAU, Elena Charlotte. Mapeamento das áreas irrigadas por pivôs centrais no Estado de Minas Gerais. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2011. 23p. - (Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento).
- MELLO, Jorge Luiz Pimenta; SILVA, Leonardo Batista da. Irrigação. Rio de Janeiro: IT/DE/ UFFRJ, 2009. 190p. - (Apostila).
- REV. GLOBO RURAL. Rio Grande do Sul lidera produção de arroz orgânico. Extraído de https://revistagloborural.globo.com/Noticias/Agricultura/Arroz/noticia/2019/01/rio-grande-do-sul-lidera-producao-de-arroz-organico.html em 04/02/2021.

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